Romance virtual
Chovia naquela noite. O Rio de Janeiro diariamente tão claro e ensolarado estava cinzento e frio. Deixou o livro sobre o sofá enquanto procurava juntar as folhas do jornal espalhadas pelo chão da sala. Tudo parecia silencioso demais, mas o vento, depois de tão longa ausência durante o verão, soprava frio e ia espalhando as notícias do jornal pela sala aconchegante. Ela levantou, espreguiçou-se e recolheu os jornais. Fechou o livro delicadamente, deixando marcada com uma folha seca a página do romance que lia. O relógio na parede da cozinha fazia um barulho insistente, marcando os minutos do dia que se arrastava preguiçoso. A hora denunciava que ainda era cedo para uma noite que se anunciava. Dez horas. Ela pensou consigo mesma o quanto queria àquela hora uma companhia. Tinha 50 anos bem vividos; cheio de lembranças e agora procurava um companheiro para dividir, compartilhar, fazer pactos que eram raros na juventude. Lembrou do computador desligado lá no quarto. Milhões de pessoas estavam naquele momento buscando companhia nos milhares de encontros virtuais. Novos tempos. Homens, mulheres, jovens, velhos. Intelectuais, operários, estudantes, escritores, trabalhadores insones, donas de casa sofridas, famosos, anônimos, velhos alegres, velhos tristes, executivos estressados, mulheres alegres, mulheres arrogantes, agnósticos confessos, crentes fervorosos.Tantos tipos, tantas personalidades. Ali, por trás daquela tela devia ter alguém desejando também uma companhia. Pensou; porque não tentar? Boas conversas poderiam acontecer. Apagou a lâmpada da sala e ligou o seu PC. O som da conexão com o mundo virtual acelerava as batidas de seu coração. Quem estará do outro lado? Será que alguém interessante? Num repente alguém distante, com uma carinha de “gente boa”, um sorriso cativante trazendo em seu perfil uma mistura simpática de desejos em comum a despertaram. Porque não? Ela clicou na descrição daquele perfil. A foto tinha um quê atrativo, um ar enigmático e sedutor. Conversaram divertidamente. A conversa corria, as emoções pulsavam por trás das palavras. Um ponto cibernético, uma moderna mídia de comunicação promovia um encontro inusitado e prazeroso. Sentidos foram despertos. Desejos foram manifestos. Surge o despertar de querer ouvir um som, da voz, da fala. Transpira o desejo de tocar e a gota de suor cai feito pérola por entre os seios enrijecidos. A distância real traz a razão que briga destemida com a proximidade escrita. Ela pára e pensa que deseja, alí, naquele momento, ter aquela companhia. Há muito tempo buscava uma vida simples e tranqüila. Desejava muito sossego. Uma casa no campo numa bela fazenda, num pequeno sítio ou na praia sempre pronta para receber os filhos, deles, que viriam risonhos visitar os pais em vida calma. Um lugar especial, onde pudessem plantar flores coloridas, cuidar de cachorros, colher verduras numa horta plantada por suas mãos. Uma casinha simples e acolhedora, onde poriam dois confortáveis sofás floridos para sentarem-se nos momentos da silenciosa leitura. Um fogão a lenha talvez a ensinasse a cozinhar. Queria viver dividindo as horas, os dias, os tempos. Dividindo com alguém. Queria amar um homem nos momentos de silêncio, quando preparavam o peixe que ele havia pescado. Quando limpavam juntos as verduras colhidas pertinho de casa. Quando sujavam as mãos de terra cuidando do jardim que floria em vivas cores traduzindo o carinho e brindando o amor.Quando, depois do trabalho, deitavam na grama verdinha e contemplavam o céu que já desenhava coloridos de entardecer. Quando por entre carinhos e sorrisos, corriam pela casa em brincadeiras quase infantis e, tão logo os beijos apaixonados os despiam amavam-se na cama limpa coberta por perfumados lençóis brancos, bordados, de puro algodão.Quando na nostalgia folheavam álbuns de fotografias e dividiam a histórias dos filhos, contando momentos dos tempos em que viveram outros amores.E ririam juntos. E chorariam também. Ela sonhava encontrar este homem e repetia para si mesmo que em algum lugar ele existia e a esperava.
O imaginário fez o romance pela imaginação de cada um. Despediram-se com desejos de um novo encontro. Assim a teve sua companhia daquela noite. Adormeceu abraçada ao travesseiro e coberta de beijos sinceros que foram enviados pelo verdadeiro e descompromissado sentido do sentir, tão somente sentir.
E foi assim que ela encontrou naquela noite um namorado, sem rosto, sem corpo, sem calor. Certamente na virtualidade o perderia, mas a vida generosamente poderia lhe dar a oportunidade de encontrá-lo no toque, no tato, no brilho do olhar, ou, quem sabe, numa história verdadeira que tanto buscava.Queria poder viver aquela história.Poderia ser uma linha, um parágrafo ou um texto em que seriam os personagens que pudessem ser e não necessariamente aqueles que ela imaginava! Sem preconceitos admitiu que a vida, moderna, cheia de virtualidade, poderia ser, naquela noite, muito romântica.
Chovia naquela noite. O Rio de Janeiro diariamente tão claro e ensolarado estava cinzento e frio. Deixou o livro sobre o sofá enquanto procurava juntar as folhas do jornal espalhadas pelo chão da sala. Tudo parecia silencioso demais, mas o vento, depois de tão longa ausência durante o verão, soprava frio e ia espalhando as notícias do jornal pela sala aconchegante. Ela levantou, espreguiçou-se e recolheu os jornais. Fechou o livro delicadamente, deixando marcada com uma folha seca a página do romance que lia. O relógio na parede da cozinha fazia um barulho insistente, marcando os minutos do dia que se arrastava preguiçoso. A hora denunciava que ainda era cedo para uma noite que se anunciava. Dez horas. Ela pensou consigo mesma o quanto queria àquela hora uma companhia. Tinha 50 anos bem vividos; cheio de lembranças e agora procurava um companheiro para dividir, compartilhar, fazer pactos que eram raros na juventude. Lembrou do computador desligado lá no quarto. Milhões de pessoas estavam naquele momento buscando companhia nos milhares de encontros virtuais. Novos tempos. Homens, mulheres, jovens, velhos. Intelectuais, operários, estudantes, escritores, trabalhadores insones, donas de casa sofridas, famosos, anônimos, velhos alegres, velhos tristes, executivos estressados, mulheres alegres, mulheres arrogantes, agnósticos confessos, crentes fervorosos.Tantos tipos, tantas personalidades. Ali, por trás daquela tela devia ter alguém desejando também uma companhia. Pensou; porque não tentar? Boas conversas poderiam acontecer. Apagou a lâmpada da sala e ligou o seu PC. O som da conexão com o mundo virtual acelerava as batidas de seu coração. Quem estará do outro lado? Será que alguém interessante? Num repente alguém distante, com uma carinha de “gente boa”, um sorriso cativante trazendo em seu perfil uma mistura simpática de desejos em comum a despertaram. Porque não? Ela clicou na descrição daquele perfil. A foto tinha um quê atrativo, um ar enigmático e sedutor. Conversaram divertidamente. A conversa corria, as emoções pulsavam por trás das palavras. Um ponto cibernético, uma moderna mídia de comunicação promovia um encontro inusitado e prazeroso. Sentidos foram despertos. Desejos foram manifestos. Surge o despertar de querer ouvir um som, da voz, da fala. Transpira o desejo de tocar e a gota de suor cai feito pérola por entre os seios enrijecidos. A distância real traz a razão que briga destemida com a proximidade escrita. Ela pára e pensa que deseja, alí, naquele momento, ter aquela companhia. Há muito tempo buscava uma vida simples e tranqüila. Desejava muito sossego. Uma casa no campo numa bela fazenda, num pequeno sítio ou na praia sempre pronta para receber os filhos, deles, que viriam risonhos visitar os pais em vida calma. Um lugar especial, onde pudessem plantar flores coloridas, cuidar de cachorros, colher verduras numa horta plantada por suas mãos. Uma casinha simples e acolhedora, onde poriam dois confortáveis sofás floridos para sentarem-se nos momentos da silenciosa leitura. Um fogão a lenha talvez a ensinasse a cozinhar. Queria viver dividindo as horas, os dias, os tempos. Dividindo com alguém. Queria amar um homem nos momentos de silêncio, quando preparavam o peixe que ele havia pescado. Quando limpavam juntos as verduras colhidas pertinho de casa. Quando sujavam as mãos de terra cuidando do jardim que floria em vivas cores traduzindo o carinho e brindando o amor.Quando, depois do trabalho, deitavam na grama verdinha e contemplavam o céu que já desenhava coloridos de entardecer. Quando por entre carinhos e sorrisos, corriam pela casa em brincadeiras quase infantis e, tão logo os beijos apaixonados os despiam amavam-se na cama limpa coberta por perfumados lençóis brancos, bordados, de puro algodão.Quando na nostalgia folheavam álbuns de fotografias e dividiam a histórias dos filhos, contando momentos dos tempos em que viveram outros amores.E ririam juntos. E chorariam também. Ela sonhava encontrar este homem e repetia para si mesmo que em algum lugar ele existia e a esperava.
O imaginário fez o romance pela imaginação de cada um. Despediram-se com desejos de um novo encontro. Assim a teve sua companhia daquela noite. Adormeceu abraçada ao travesseiro e coberta de beijos sinceros que foram enviados pelo verdadeiro e descompromissado sentido do sentir, tão somente sentir.
E foi assim que ela encontrou naquela noite um namorado, sem rosto, sem corpo, sem calor. Certamente na virtualidade o perderia, mas a vida generosamente poderia lhe dar a oportunidade de encontrá-lo no toque, no tato, no brilho do olhar, ou, quem sabe, numa história verdadeira que tanto buscava.Queria poder viver aquela história.Poderia ser uma linha, um parágrafo ou um texto em que seriam os personagens que pudessem ser e não necessariamente aqueles que ela imaginava! Sem preconceitos admitiu que a vida, moderna, cheia de virtualidade, poderia ser, naquela noite, muito romântica.

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