quinta-feira, 23 de julho de 2009

Quero minha mãe

Ela viveu 92 anos e morreu da doença de Alzheimer. Ou melhor, não morreu da doença e sim de “falência múltipla dos órgãos”. Acho que ninguém morre de Alzheimer, o mundo é que vai morrendo para o doente. Ela apagou como se apagam as chamas que por muitos anos iluminaram muitas vidas. Impossível não lhe dedicar minha crônica deste mês de maio, o mês das mães. E resolvi escrever para ela (vocês me dão licença, né?) porque minha orfandade adulta me deixará de mãos vazias no segundo domingo de maio, como me deixou desde o último Natal. Somos órfãos em qualquer idade.
Meus olhos encontrarão muitas delicadezas nas vitrines que poderiam enfeitar minha alegria e sua linda maternidade: uma almofadinha para acomodar seu rosto, um pijama floridinho, um novo lençol para sua cama, um sapatinho macio todo feito de pano, uma colônia de perfume leve, um ramalhete de flores para enfeitar a cômoda de seu quarto ou um travesseirinho, como aquele, bordado “mamãezinha querida” em ponto haste, como o que uma das minhas irmãs fez para ela. Desde que nós, seus oito filhos nascemos, será o primeiro Dia das Mães sem o almoço domingueiro e aquela grande família reunida, comemorando nossa mãe, nossos filhos nos comemorando, os filhos de nossos filhos brindando a vida de suas mães, de suas tias, de sua avó, de sua bisavó.
Onde está você mamãe? Em sua casa a encontrávamos muitas vezes de cócoras, com as mãos imundas de terra preta, fazendo mudinhas das violetas roxinhas, brancas, rosas... Na cozinha descascando laranja da terra para fazer um doce; escrevendo na mesa da sala a ata das reuniões do Apostolado da Oração. Mãe, cadê você? Onde está sua voz nos dizendo que o almoço estava na mesa, rezando a Ave Maria, chamando Jesus de “Nosso Senhor"? Ah, mãe, lembro tanto das suas roupas elegantes, a saia plissada, sempre do comprimento correto, suas blusinha de malha com casaquinho comportado, seu colarzinho de pérolas que nem eram verdadeiras (eu até queria lhe dar um, mas não deu tempo). Suas flores na jarra da sala, a colcha de crochê do quarto, o mingauzinho de aveia a noite que você fazia pra mim, o chá de folhas de laranja da terra queimadas com cachaça e açúcar quando eu tossia aquela tosse de cachorro magro. Você na sua cama, mãe, com seus filhos feito ninhada, todo mundo brigando por um espacinho mais perto do seu cheiro. Você mãe, sempre com a fita do Sagrado Coração de Jesus, acompanhando as procissões e eu com medo da tal procissão. Lembra mãe, a gente indo lá na costureira para encomendar o vestido de festa?
Mãe, quase ninguém nesse mundão de Deus teve mãe sendo sua professora no Jardim de Infância. Ah, mãe, a gente era tão pequenininha! Tem até aluno e aluna seu que já morreu. Pode mãe? Ninguém poderia morrer. Fala aí, mãe, para Deus que essa história de morrer é muito ruim. Será, mãe, que eu agüento viver sem vocês todos? Será que aí onde vocês estão fica todo mundo junto? Se for assim, mãe, eu nem ligo muito de morrer porque vamos poder juntar uma familhona outra vez, né? Mas tenho um medo horrível mamãe e você nem tá aqui pra me consolar. Sabe mãe, agora estou mais calma e até tenho me consolado com essas idéias de finitude. Para me consolar fico fantasiando que vocês todos já se encontraram, e estão aí olhando a gente nessa bobagem de querer tantas coisas, sofrer por qualquer tolice e se agarrando nesse “mundo cão” como disse tia Madalena. Mãe, no domingo das mães, vou comprar uma violetinha roxa ou será que você prefere rosa? E vou mandar pra você. Pode deixar mãe, vou colocar aqui no meu quarto pra ninguém derrubar. Mais tarde, mãe, vou rezar pra lhe mandar meu beijo e combinar com Deus umas coisas. É que a gente dá muito trabalho e você, mãe, depois de viver 92 anos, deve estar muito cansada. Mas, você é guerreira, sofreu muito com essa tal de Alzheimer e nem pôde contar para gente como é mesmo que isso acontece. Agora, mãe, fica quietinha, descanse e espera, porque se for verdade essas coisas que você nos ensinou, vai ter um dia que vamos fazer uma festança de Dia das Mães aí no céu! Por enquanto vamos festejar você aqui, todo mundo junto, seus sete filhos, seus 23 netos e bisnetos. Sua lembrança, mãe, é sempre festa!

Nenhum comentário: