Bodes e Bobagens
Todo mundo tem a sua criação de bodes. Eles moram lá dentro da gente. Eu, quando meus bodes aparecem, afago, converso com eles, reconheço ou não cada um deles. Mas não os mando embora, como se eles pudessem me obedecer. Fico é com pena de mim porque às vezes o bode é muito feio, agressivo, ameaçador. Às vezes a gente tem que ter pena da gente mesmo. Reconhecer que aquele bode bem que podia ir pastar em outra cabeça.
A Florinda só fala que tá de bode e “-logo logo” ela manda ele embora. Tudo mentira. Eu não creio nisso. Bode que a gente manda embora, assim de qualquer jeito, logo logo volta, ou fica perturbando a cabeça da gente. Meu bode, quando sei quem ele é, às vezes boto até na cama pra dormir comigo. Ou até levo o bode desconhecido pra minha cama até descobrir quem é ou porque veio pra minha casa. Tenho que cuidar dele, entendê-lo pra que ele vá embora. Bode é coisa séria. Com tantos desvios e fugas, olhar o bode nos olhos é a única forma de começar a entendê-lo. É recado que vem vindo pra mostrar que alguma coisa no corpo ou na alma não está nada feliz. Eu nunca vi um bode bonito. Tem alguns mais feios, mas eles são sempre muito ruins. Podem até chegar depois de um dia ou uma noite de muita alegria e festa. Aí, é o bode da ressaca e a gente conhece bem. Faz a cabeça doer, o corpo ficar todo moído e aquele gosto horrível na boca. Mas esse é um bodinho à toa; vai embora depois de uns remedinhos, muita água e repouso. Tem bode de tudo quanto é origem. Bode de luto entra na nossa casa e não se deve expulsá-lo de jeito nenhum. É um daqueles que têm que ser enfrentados com a gente chorando, entristecendo e vivendo até ele resolver, e, com o tempo de cada um, ir embora. Mas esse, o bode do luto, deixa sempre em nossas lembranças o seu cheiro e sua marca. A moça bonita que é minha vizinha acha que os bodes dela são dos outros. Nada disso, ela não entendeu que aquela criação do terreno dos vizinhos sãos bodes deles. Os nossos podem até chegar por causa dos outros, mas são nossos, nos pertencem e têm que ser cuidados. Agora eu acho que ela entendeu do que ando falando.
Atualmente existem os bodes que resolveram chamar de depressão. Ah, que nome forte para bodes! Qualquer bodinho de tristeza, dor de cotovelo, perdas, ansiedades, preguiça, problemas no trabalho, doença, chamam por esse nome. Calma lá, depressão é coisa muito forte, é doença séria e precisa de psiquiatra. Bodes detestam psiquiatras! E acho que os psiquiatras detestam bodes. Eles aprenderam a cuidar das doenças e não podem perder tempo com essa manada de “bodinhos”. Se percebidos, apropriados, sentidos e identificados como nossas emoções, os bodes nos fazem sofrer, mas nos fazem mais humanos. Os bodes são nossos, e fingir que não os percebemos é fingir que não sentimos.
E estou me sentido meio bodada.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
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