Rio de carnaval, luto e lágrimas
A cidade esteve carnavalesca. Famílias inteiras, entre brilhos de vidrilhos e paetês, confetes e serpentinas, buscavam conter as lágrimas, esquecer a dor, driblar o medo e foram buscar alegria nas ruas da cidade. Não brinquei o carnaval porque esqueci o luto por tantas dores. Brinquei com amigos que lutamos para não sucumbir à dor e ao medo, buscando algum motivo de alegria que nos mantenha vivos. Muitos sorrisos estavam banhados de lágrimas. A morte do menino João Helio, brutalmente assassinado, tirou a luz de alegria de seus pais, sua família, amigos e de muitos cariocas. A comoção tomou a cidade e a emoção que fez cariocas indignados, mais uma vez, foi banalizada pelos órgãos de estado. Desvaloriza-se a emoção humana como se pudéssemos existir, atuar numa sociedade, sem ela. A comoção carioca fez surdo os tambores da alegria. No peito da família do João Helio não bateram sensações e sentimentos de festa.
O Rio comemorou o carnaval. A febre festiva, o dinheiro, os lucros, não podem esperar um cortejo fúnebre passar. Logo na outra rua, num outro bairro, outros cortejos fúnebres levam outras vítimas. E o mundo tem pressa, cada vez mais pressa. O João se foi no florescer de sua meninice. Seus algozes, jovens delinqüentes, são filhos também da violência. E a sociedade discute a menoridade penal, a pena de morte com discursos impiedosos e desumanos. Um viés até compreensível pela brutalidade da morte do menininho, mas inaceitável se pretendemos ter uma sociedade justa.
A “guerra” na cidade do Rio de Janeiro, com índices absurdos de mortalidade, está estraçalhando toda e qualquer sensatez que ainda nos resta para discutir caminhos de paz e serenidade. Em nenhum país do mundo o crime foi extinto, mas o terror pode ser controlado. E o Brasil implora soluções. E temos muitos caminhos.
Certamente os assassinos do João não se valeram da menoridade para assassiná-lo. Certamente não queriam ser presos nas celas fétidas de nossas penitenciárias ou em amargar em centros de amontoação de menores onde nada se parece com recuperação e dignidade. Quem nossos sistema penitenciário recupera? As leis existem, a polícia atua, mas tudo parece estar alicerçado em pilares podres ou feitos de areia. Um país com milhares de hectares de terras improdutivas poderia abrigar centenas e centenas de presídios ou centros de recuperação de menores, onde a educação, o plantio, a colheita, o trabalho de cada um os fariam auto sustentáveis. E porque amontoar homens e mulheres, meninos e meninas, em cubículos nojentos onde nada é feito para realmente reintegrá-los à sociedade? Os adolescentes como os assassinos de João Helio, e de muitos outros Joãos, teriam, se houvesse vontade política e vergonha neste País, oportunidades de recuperação.
Muitos pais que choram seus filhos mortos assassinados ou que se tornaram assassinos impiedosos são também homens e mulheres que há muito foram relegados. Lutam por grãos de feijão e arroz para alimentarem seus filhos. Onde estão efetivas políticas públicas de educação para todos, saúde, cultura, habitação? A pobreza não justifica, mas a privação por pobreza explica muita coisa. Não se tem notícia de bebês monstros, não se conhecem crianças de dois ou três anos já delinqüentes. Mas, neste País, nesta cidade, podemos ver diuturnamente crianças, ainda na primeira infância, largadas nas ruas, aprendendo as primeiras letras do alfabeto do crime e do terror. Uma criança não escolhe a rua. Não há escolha quando se tem um único caminho. Para muitas crianças e jovens a rua passou a ser a sobrevivência e o roubo, o crime e a delinqüência a quase inevitável conseqüência.
Hoje encontrei dois meninos de rua que pediam comida. Um deles só tem 9 anos. O outro 11. Suas histórias de vida justificavam estarem nas ruas. O mais velho fugiu de casa por ser espancado por seu pai alcoólatra, que espanca também sua mãe. O menor, na rua há pouco tempo, prefere a rua à pobreza, miséria, maus tratos. Aqueles meninos, MENINOS, sujos, largados, com fome, estão aprendendo o quê? Da rua sabem tudo. São usados, agredidos, discriminados, ameaçados. Será que serão salvos a tempo de não se tornarem, aos 16 anos, terroristas assassinos de crianças?
Enquanto estamos assustados, sofridos, apavorados e com nossos corações sangrando diante da brutalidade dos assassinatos do Joãozinho, dos franceses da ONG e de tantos outros o que estará se pensando para que o Brasil deixe urgentemente de “fabricar” assassinos? Enquanto choramos, as ruas das grandes cidades parecem esteiras de fábricas onde crianças e jovens passam diante de nossos olhos empurrados pelos desmandos do estado, do imobilismo da sociedade e dessa brutal desigualdade social e, certamente serão produtos prontos para aliciamento no mundo do crime.
É preciso que façamos, todos, alguma coisa por eles. E já!
quinta-feira, 23 de julho de 2009
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