quinta-feira, 23 de julho de 2009

Pega leve, doutor!

Com 50 anos de idade deve haver um montão de botões dentro da gente que desliga. Ainda bem, senão seria mais um trabalhão a fazer: entender a lógica que existe nas tantas linguagens que aparecem por aí. A linguagem dos médicos é uma delas. Até bem pouco tempo, quando percebíamos alguma coisa mal com a saúde ouvíamos do médico diagnósticos como "você está com gripe", "você tem uma infecção", "o senhor tem pneumonia", "infelizmente a senhora tem uma doença grave" ou um animador, "a criança não tem nada sério". Hoje roubaram-nos a posse de nossas doenças. Até aí, tudo bem, roubo é roubo e roubarem nossas doenças seria até bom. Mas nos deram em troca a culpa. Agora os médicos dizem: "Você fez uma gripe" ou, mais carinhosamente "você está fazendo uma infecção" ou, mais assertivamente, quando a coisa é séria "sinto muito, mas você está fazendo um câncer". Será, será mesmo que é uma questão de linguagem como mais uma das traduções literais de expressões em outras línguas? Se sim, já é mais um soco no estômago dos que se incomodam com essa tal de língua viva de que falam os lingüistas quando compreendem e explicam o gerundismo e os textos dos internautas. Mas, ainda que seja um movimento do idioma português no Brasil, que, como vivo, movimenta-se, o tal "você fez" ou "você está fazendo" é dose pra leão! Se estamos com sintomas, suspeitas de alguma doença, já ficamos fragilizados. Se tomamos a atitude (muitas vezes dolorosa na alma e no bolso) de procurar um médico, buscamos um tratamento e não um passaporte para o psiquiatra ou psicanalista. Imagine se você ouve do seu médico que está fazendo uma isquemia, uma doença neurológica séria, uma diabetes, uma cegueira e coisas que o valham? Você só pode mesmo se atentar para a quase acusação, entrar num horrível processo de culpa que irá adoecê-lo mais ainda. Vamos lá, doutores, a gente sabe que a cabeça faz muitas coisas, até doenças, mas doente não precisa de culpa. Doente precisa de diagnóstico, cuidados, afeto e acolhimento. Pega leve, doutor! Vamos imaginar um paciente num CTI, em estado gravíssimo, mas consciente. Abstraindo-se o lado trágico, pode até tornar-se cômico. Em volta dele uma equipe de médicos e paramédicos. Um médico diz: "ele fez um AVC”. O outro responde “não foi isso, ele já fez um infarto antes e estamos investigando se está fazendo uma infecção". Uma enfermeira diz: "tem perigo; ele pode fazer uma hemorragia". O paciente está no leito, entubado, imobilizado mas fica pensando: "Como trabalho! Até aqui eles dizem que faço, estou fazendo ou já fiz. Mas não estou num CTI? Estou doente! Será que eu posso me fazer tanto mal?" E aquele paciente, consciente, começa a torturar-se pela culpa que sente por todos os chopes que bebeu com os amigos, todas as noites de farra, todas as delícias gastronômicas desaconselhadas, os cigarros que fumou, todos os charutos comemorativos dos nascimentos de filhos e sobrinhos, todas as perdas afetivas involuntárias, as paixões que doeram no peito, todas as mortes que enfrentou, todos os choros por amigos que foram embora, todas as crises no trabalho, todas as tensões que topou por crescer profissionalmente, todas as dívidas financeiras, todos os sacrifícios por manter-se ... A culpa cresce, cresce e cresce e aí, ele, no leito daquele CTI se pergunta: “Se é assim, devo ser mesmo o culpado". Por que faço doenças? Por quê? Por quê? Será que posso fazer a morte?” É o mundo moderno, a cultura da culpa. Ainda bem que estou aceitando que com 50 anos alguns botões dentro da gente vão se desligando... Não dá pra entender tanta mudança. Não dá pra sentir mais culpas. Só dá mesmo pra pedir aos médicos, quando ficarmos doentes: pega leve, doutor!

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