quinta-feira, 23 de julho de 2009

A morte não lhes cai bem

A morte não lhes cai bem

Estarrecedora uma recente matéria da Revista O Globo, publicada aos domingos. A imprensa noticia mortes diariamente, e está ficando a cada dia mais freqüente lermos notícias de crimes, assassinatos, mortes evitáveis de amigos, conhecidos e parentes. As mortes ficam parecendo que não têm nenhuma importância. Enquanto a matéria “A morte lhes cai bem”, matéria bem feita da Revista, mostra a indústria milionária que cerca funerais em São Paulo, o Rio se apresenta como uma cidade que os órgãos e instituições responsáveis por cuidar dos cemitérios são extremamente desrespeitosos com os mortos, os funerais e famílias. No maior cemitério da Zona Sul do Rio qualquer mortal pode observar como são tratados os rituais dos mortos: sem nenhum cuidado, zelo e principalmente respeito. Falta dignidade. Ali se vê de tudo: túmulos quebrados, lajes afundadas, roubos, mato crescendo, sujeira em todos os túmulos, lixo amontoado e até moradores de rua que ocupam as alamedas. No cemitério São João Batista já vi um caixão desenterrado, com restos de ossos. Já fomos aconselhados a enterrar coroas de flores para assegurar que não seriam roubadas. Já fomos orientados a ter cuidado onde pisar para que não afundássemos dentro de um túmulo sem nenhum reforço de laje. Recentemente, emocionada com a perda de um amigo, sufoquei o ódio ao ver sua mãe, defensora do enterro com rituais cristãos, proteger-se do mato alto que crescia perto do túmulo de seu filho, cheiros insuportáveis de corpos em putrefação, insetos que nos picavam, lixo e total abandono. Enquanto tentávamos nos concentrar na despedida, um cheiro insuportável de corpo em decomposição saía de um dos túmulos vizinhos, de onde escorriam líquidos. Parece um filme de horror essa minha descrição, mas não é. É resultado da conduta daqueles que cobram por um espaço para que enterremos nossos amores de tanta vida e não sabemos o que fazem com o que arrecadam. E a situação é igual em quase todos os cemitérios do Rio de Janeiro: ou se tem dinheiro para buscar uma solução de sofisticação como as paulistas, ou a cremação, quando não contraria costumes religiosos ou o carioca tem que se submeter às precárias condições em que os corpos de seus entes queridos serão tratados enquanto viram pó. Como pode uma cidade não mais garantir velórios noturnos por medo de que alguém seja assaltado, baleado ou morto? Mesmo já sem vida, um morto carioca pode levar um tiro (misericórdia?), como já aconteceu na cidade. Como pode não existir nenhum apoio às famílias enlutadas, muitas delas em desespero, no momento de despedida de pessoas de suas vidas? Não queremos o luxo e os milhões do sofisticado mercado que lemos na reportagem da revista citada. Queremos gritar por respeito, por humanidade, decência e que nossos mortos não sejam jogados em cemitérios como se fossem lixos em valas negras do descaso, da insensibilidade, da crueldade. Decência, cuidado, higiene e segurança já bastariam para que pudéssemos ter garantias de sepultarmos as pessoas que amamos. Morrer não é luxo, sepultamento não é festa. Dinheiro não pode ser tudo.
Que gritem os cariocas vivos para que possamos garantir chorar com dignidade nossos mortos!
A morte de um ser humano, segundo costumes de diferentes culturas, tem sempre rituais da maior importância. Os rituais funerais comportam uma dimensão social e, como tal, representam um acontecimento estratificado. Todos morrem, é certo, contudo, a duração da vida e as modalidades do fim são diferentes segundo as classes a que pertencem os mortos. As representações sociais da morte e as crenças funerárias são diferenciadas, mas, sem dúvida, em todas as culturas a morte é ritualizada. Na cultura cristã, morrer é um acontecimento baseado nas crenças de que Deus passa a ser o responsável único e salvador da alma, e o corpo, já não habitado pelo espírito, deve ser enterrado. No Rio de Janeiro, uma metrópole, enquanto a vida pulsa com força e paixão, as lágrimas das perdas de entes queridos são, como se não bastasse a dor, carregadas de indignação. Os cemitérios, onde por suposto famílias e amigos despedem-se de seus mortos e os enterram com emoção, alamedas são imundas, ossos são espalhados por montes de lixos, flores apodrecem, túmulos são profanados e roubados. Não existem os mínimos cuidados com higiene, conservação e dignidade.

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