quinta-feira, 23 de julho de 2009

Alegria

Alegria

Uma coisa da beleza é uma alegria para sempre”.
Endymion, 1818

Mês passado deixei prometido um texto sobre alegria. Talvez poucos se lembrem, mas compromisso com leitor, ainda que só unzinho, é coisa séria. E estar alegre então? Para mim, muito mais sério, porque não faltam motivos pra eu escrever meus desalentos e tristezas. Mas, caro leitor, também tenho bons motivos para alegrias.
Desde criança sou alegre, falante e extrovertida. E as pessoas diziam que eu era uma menina alegre. Hoje, muitas vezes, tenho que sair procurando a danada da alegria que gosta de se esconder por trás de meu coração ou descansar deitada nos meus neurônios inquietos, pedindo emprestado cobertores da infelicidade para se aquietar. Mas eu acabo achando ela. Acho em lugares que nem pensei em procurar. Às vezes, a encontro dissimulada numa indumentária colorida, numa dança festiva, mas reconheço logo: alegria falsa! Em outras vezes, a encontro genuína, limpa, brilhante, com aquele brilho que salta pelos meus olhos iluminando meu rosto inteiro, colorindo meus sorrisos. Quando encontro a alegria assim, tem sempre uma pulsação ritmada do meu coração, com a felicidade que só empresta aconchego em alguns momentos na vida da gente. Alegria o tempo todo não acho muito verdadeiro. A alegria mora no meu peito e corre até minha cabeça, toca sininho, avisando ao meu corpo desperto que aquele momento é único. Muitas vezes, leitor, minha alegria vem logo a seguir ao desalento, ao desabafo, acompanhando os passos de uma grande tristeza. Aquele texto do mês passado, em que eu queria virar ostra, me deu muitas alegrias. Já pensou que alegria me deu mandar à merda uma leitora que me execrou, agrediu, em duas laudas de texto, dizendo que eu era covarde e não conseguia mandar à merda meus meninos de rua ou eu mesmo? Putz, que alegria foi responder a uma mulher tão amarga!
Como dá alegria, só alegria, receber um elogio seguido de um P.S. todo sedutor a respeito da minha crônica dizendo: “... essa ostra, com limãozinho espremido e uma dose de cachaça do lado, não sei não...”.
Tocam muitos sininhos de alegria receber dezenas de mensagens de apreço e admiração pelo texto da Folha Gávea Leblon sobre o brincar das crianças cegas do Instituto Benjamim Constant e observar que muitos leitores podem ver e enxergar compreendendo as diferenças entre a luz e a escuridão dos sentimentos humanos.
Escrever um texto que vai saindo da alma, carregado de emoções, é muita alegria.
Alegro-me em ver aquele pássaro azul que vem pousar na minha varanda e meu amigo Sergio, que sabe o nome de todos, me dizer o nome dele. Fico até mais alegre com o passarinho que me lembra o Sergio e sorrio sozinha lembrando que o nome do passarinho eu esqueci, mas nunca vou esquecê-lo e muito menos quem o identificou.
Alegro-me ainda ao ouvir o pio da corujinha que dorme no telhado, pertinho da janela do meu quarto .E reconheço corujas desde os tempos em que vivia no interior.
Alegria eu vejo nas crianças brincando na rua, na pracinha, nas calçadas. Quanta alegria vi em duas meninas pobrezinhas, sentadas no meio fio á beira do canal do Mangue, indiferentes as suas sortes, trançando os cabelos uma da outra e pintando as boquinhas com restos de batom mirando-se em cacos de espelho achados no lixo.
Alegria é ver minha mãe, aos 92 anos, sorrir e brilhar os olhos ao perceber minha chegada.
Como não chamar de alegria poder afagar o rosto do meu amor quando ele deixa escapulir uma lágrima de saudades do pai falecido!
É de saltitar de tanta alegria receber o abraço afetuoso e sincero de um amigo, de outro amigo, de muitas e muitas sinceras amizades.
É alegre ter uma grande família, fazer reuniões, discordar, brigar, mas nunca se separar e ver crescendo essa família.
É uma alegria sentir que estamos cumprindo promessas feitas a uma amiga quando ela se despedia da vida.
É muito alegre perceber que a alegria, que existe em cada um dos seres humanos, só precisa ser desperta: ela está sempre pronta a aparecer. Ás vezes, quando estou abraçada com minhas dores, infeliz com as maldades que me fazem ou faço a mim mesmo, vou buscar uma por aqui, pertinho da minha casa ou dentro dela. Encontro por perto meus filhos crescidos: alegria pura! Descubro uma nova flor que brotou das minhas plantinhas na varanda; alegria de ver nascer. Acho uma foto antiga em que minhas mãozinhas miúdas enlaçavam as de minhas melhores amigas no jardim de infância: alegria de sentir saudades. Encontro na estante meu livro preferido, marcando com uma folha seca o poema sobre felicidade: alegria de sentir. Nas gavetas acho muitas alegrias; é onde guardo aquelas fotos antigas, os bilhetinhos e cartas e meus escritos de muitas tristezas e alegrias: alegria de viver!
Alegrias não são esquecidas, continuam acontecendo e elas são nossas, sempre. E estarão presentes mesmo que, em alguns momentos, deslembrando delas, estejamos tristes.

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