Ana, por favor, fala pro poeta...
(A respeito da crônica da Ana Flores da edição de outubro da Folha Carioca
em que a cronista “conversa” com a estátua de Drumond)
Ana, vou pedir um favor, dá um pulinho ali em Copacabana, senta perto do Drumond novamente e fale a ele sobre mim. Será, Ana, que ele vai responder? Se ele der uma piscadinha, um sorrisinho, já valeu, amiga! Ele foi tão gentil ouvindo e acompanhando o que você falava. Não fica com ciúmes não, Ana, é que eu achei o máximo sua idéia de conversar com o poeta e muito mais legal ainda foi o acolhimento dele às suas angústias cariocas. Interessante é que dizem que ele não era muito de conversas...
Quando você for encontrar novamente o poeta, fale das minhas alegrias e peça a ele uns conselhos sobre minhas dúvidas e angústias. Será que o poeta sabe o que é ataraxia? É que conheci uma pessoa que diz que tem essa “doença”. Eu não sabia o que era, aí, fui procurar no dicionário e li umas coisas bem interessantes. Não é doença não. Li até o João Gaspar Simões dizendo que Fernando Pessoa passava “da euforia à prostração, numa ataraxia búdica”. Ah, Ana, pergunte ao poeta como é que Pessoa, com aquela arte maior de discorrer sobre a vida poetando, podia ter essas coisas de prostração e ataraxia? Será que ele, o poeta, também tinha essas coisas, essas todas que nós temos tido na nossa cidade, aqui no Rio?
Conta pra ele, Ana, que o Rio se desmanchou em lágrimas, numa chuva de afogar todo mundo, na última quarta-feira. Será que ele ficou sabendo que o Rebouças fechou com toneladas de barro só pra mostrar sua essencialidade e dar um susto no César? Mas explica, Ana, porque tá tudo tão desarrumado que ele pode pensar que estamos falando do César, rei de Roma. Sabe Ana, talvez o poeta queira saber que a Baixada ficou afogada na chuva e nas lágrimas do sofrimento daquelas pessoas que perderam tudo. Ele não deve ter lido sobre isso. Quase não saiu nos jornais porque é o povo pobre e, quando pobre perde tudo, perde tão pouquinha coisa que ninguém se importa muito. Comente também sobre o dono do Estado que tem “boquinha nervosa” e amor a menos, e andou dizendo que na Rocinha nascem crianças pra engrossar a delinqüência. Será que o poeta alguma vez foi à Rocinha ou a alguma favela do Rio? Acho que ele escrevia a vida e conhecia muito bem os trabalhadores e famílias que moram na Rocinha, cuidam de seus filhos, preocupados em dar-lhes amor e sabe muito bem que esse Cabral de agora precisa descobrir o Brasil de hoje.
Mas, Ana, não reclame tanto das minhas coisas. Nem comente que desapaixonei por meu trabalho, fui fritada e isso doeu demais. Nem conta que andei triste, porque nem mais estou tanto. Tadinho do poeta, já ouviu você atento e das coisas que quero reclamar, você reclamou também. Aproveita, amiga, pra falar um pouco de poesia no ouvido dele. Lembra a ele a pedra no meio do caminho. Lembra, Ana, que ele escreveu “No meio do caminho”?
“Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”
Sabe, amiga, acho que nós é que estamos esquecendo que no meio do caminho tem muitas pedras e estamos reclamando muito dessas nossas pedrinhas. Pensando bem, dê um beijo na careca dele, faça um carinho no dorso de suas mãos e deixe o poeta aí, quietinho, pensando. Ele dizia que “Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer”.
Ana, não esqueça de lhe mandar um abraço do pessoal da Folha Gávea Leblon, principalmente dessa turma que gosta de literatura, de poesia, de livros, letras, palavras. O Alexandre Brandão ficou com inveja de você, igualzinho a mim. Tenho certeza que a Ieda Magri também, o Tamas, o Marcos, a Gisela, a Petippa e o Oswaldo Miranda. O Fred e o Dirceu, aposto, vão lá fotografar o poeta e ficarão esperando um sorriso, um dar de ombros ou uma franzida no cenho por estar preocupado. Fred nem vai escrever nada, pois certamente ficará sem fôlego! A Ângela é bem capaz de ir também visitar o poeta, falar de como gosta da Folha e se ele pode dar uma mãozinha conseguindo uns anunciantes. Já pensou, Ana, um anunciante vindo de indicação do Carlos Drumond de Andrade?
E o Paulo Wagner, nosso editor, vizinho do banquinho do Drumond, vai até lá, tenho certeza, numa conversa de pé de ouvido, trocar umas idéias sobre a pauta do próximo número da Folha e até oferecer um exemplar de novembro.
Ana, diz pra ele me receber um dia. Tenta, tá, amiga. Se eu conseguir um “sorrisinho complacente” como o que você recebeu, vou ficar toda boba.
Um beijo, Ana Fores, obrigada pelo poeta!
(A respeito da crônica da Ana Flores da edição de outubro da Folha Carioca
em que a cronista “conversa” com a estátua de Drumond)
Ana, vou pedir um favor, dá um pulinho ali em Copacabana, senta perto do Drumond novamente e fale a ele sobre mim. Será, Ana, que ele vai responder? Se ele der uma piscadinha, um sorrisinho, já valeu, amiga! Ele foi tão gentil ouvindo e acompanhando o que você falava. Não fica com ciúmes não, Ana, é que eu achei o máximo sua idéia de conversar com o poeta e muito mais legal ainda foi o acolhimento dele às suas angústias cariocas. Interessante é que dizem que ele não era muito de conversas...
Quando você for encontrar novamente o poeta, fale das minhas alegrias e peça a ele uns conselhos sobre minhas dúvidas e angústias. Será que o poeta sabe o que é ataraxia? É que conheci uma pessoa que diz que tem essa “doença”. Eu não sabia o que era, aí, fui procurar no dicionário e li umas coisas bem interessantes. Não é doença não. Li até o João Gaspar Simões dizendo que Fernando Pessoa passava “da euforia à prostração, numa ataraxia búdica”. Ah, Ana, pergunte ao poeta como é que Pessoa, com aquela arte maior de discorrer sobre a vida poetando, podia ter essas coisas de prostração e ataraxia? Será que ele, o poeta, também tinha essas coisas, essas todas que nós temos tido na nossa cidade, aqui no Rio?
Conta pra ele, Ana, que o Rio se desmanchou em lágrimas, numa chuva de afogar todo mundo, na última quarta-feira. Será que ele ficou sabendo que o Rebouças fechou com toneladas de barro só pra mostrar sua essencialidade e dar um susto no César? Mas explica, Ana, porque tá tudo tão desarrumado que ele pode pensar que estamos falando do César, rei de Roma. Sabe Ana, talvez o poeta queira saber que a Baixada ficou afogada na chuva e nas lágrimas do sofrimento daquelas pessoas que perderam tudo. Ele não deve ter lido sobre isso. Quase não saiu nos jornais porque é o povo pobre e, quando pobre perde tudo, perde tão pouquinha coisa que ninguém se importa muito. Comente também sobre o dono do Estado que tem “boquinha nervosa” e amor a menos, e andou dizendo que na Rocinha nascem crianças pra engrossar a delinqüência. Será que o poeta alguma vez foi à Rocinha ou a alguma favela do Rio? Acho que ele escrevia a vida e conhecia muito bem os trabalhadores e famílias que moram na Rocinha, cuidam de seus filhos, preocupados em dar-lhes amor e sabe muito bem que esse Cabral de agora precisa descobrir o Brasil de hoje.
Mas, Ana, não reclame tanto das minhas coisas. Nem comente que desapaixonei por meu trabalho, fui fritada e isso doeu demais. Nem conta que andei triste, porque nem mais estou tanto. Tadinho do poeta, já ouviu você atento e das coisas que quero reclamar, você reclamou também. Aproveita, amiga, pra falar um pouco de poesia no ouvido dele. Lembra a ele a pedra no meio do caminho. Lembra, Ana, que ele escreveu “No meio do caminho”?
“Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”
Sabe, amiga, acho que nós é que estamos esquecendo que no meio do caminho tem muitas pedras e estamos reclamando muito dessas nossas pedrinhas. Pensando bem, dê um beijo na careca dele, faça um carinho no dorso de suas mãos e deixe o poeta aí, quietinho, pensando. Ele dizia que “Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer”.
Ana, não esqueça de lhe mandar um abraço do pessoal da Folha Gávea Leblon, principalmente dessa turma que gosta de literatura, de poesia, de livros, letras, palavras. O Alexandre Brandão ficou com inveja de você, igualzinho a mim. Tenho certeza que a Ieda Magri também, o Tamas, o Marcos, a Gisela, a Petippa e o Oswaldo Miranda. O Fred e o Dirceu, aposto, vão lá fotografar o poeta e ficarão esperando um sorriso, um dar de ombros ou uma franzida no cenho por estar preocupado. Fred nem vai escrever nada, pois certamente ficará sem fôlego! A Ângela é bem capaz de ir também visitar o poeta, falar de como gosta da Folha e se ele pode dar uma mãozinha conseguindo uns anunciantes. Já pensou, Ana, um anunciante vindo de indicação do Carlos Drumond de Andrade?
E o Paulo Wagner, nosso editor, vizinho do banquinho do Drumond, vai até lá, tenho certeza, numa conversa de pé de ouvido, trocar umas idéias sobre a pauta do próximo número da Folha e até oferecer um exemplar de novembro.
Ana, diz pra ele me receber um dia. Tenta, tá, amiga. Se eu conseguir um “sorrisinho complacente” como o que você recebeu, vou ficar toda boba.
Um beijo, Ana Fores, obrigada pelo poeta!

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