Essa mania de felicidade
“Tristeza não tem fim
felicidade sim...
A felicidade é como a gota
de orvalho numa pétala de flor
brilha tranqüila
depois de leve oscila
e cai como uma lágrima de amor.”
A Felicidade
Vinícius de Moraes e Tom Jobim
Detesto essa quase obrigação de estar sempre feliz! Você nem pode um dia estar de mau humor, estar zangada com alguma coisa, se sentido abandonado ou triste. Lá vem cobrança: “que tal melhorar essa carinha?” “Por que não se arruma e vai dar uma volta?” “Dê uma caminhada, olhe que céu azul, que dia lindo!” Nos pacotes modernos, nos instrumentos eletrônicos, nos papéis de seda, nessa louca e agressiva comunicação de massa, estão sempre escritas as frases da felicidade a qualquer custo.
Uma fisionomia triste ou preocupada não gera lá muitas perguntas do tipo “Você está bem? Posso te ajudar? Quer conversar” São sempre assertivas do tipo, você não está bem ou, muito piores, os comentário de longe, “fulano é mal humorado,” “ela é PMD”, “é bipolar”, “tem TOC” e essas e outras leviandades que se diz sempre tomando emprestado da psicologia ou psiquiatria o diagnóstico de coisas muito sérias. Ninguém recorre, lá no seu dicionário arquivado na vivência e no aprendizado, a umas velhas e humanas considerações: “tristeza é um sentimento humano”. Quem está triste pode, também ser feliz.
E quanto mais moderno, mais culto, mais informado, mais o verbo analisa, avalia e diagnostica. Os mais simples lidam mais verdadeiramente com essas emoções. Vocês já viram funeral de gente pobre, gente simples? Compararam com um de ricos e muito bem educados? Nos enterros do povão as manifestações de dor são genuínas, escancaradas, gritadas, expressas tal como são suas manifestações de alegria, indignação ou aborrecimentos: verdadeiras. Nos funerais de rico convencionou-se um enredo de vestes pretas, óculos escuros e tudo mais que possa mascarar as lágrimas e a dor. Se tiver alguém muito emocionado e chorando muito, tem outro alguém pronto a oferecer um comprimidinho daqueles que tampam a dor e um outro alguém pra criticar a falta de controle ou, ainda pior, dizer: “tá fazendo teatro”. Já vi até criança em enterro de mãe, vestido de paletó e de óculos escuros. Lembro sempre da imagem do então menininho, filhinho da Lady Diana, no funeral da mãe, talvez quebrando protocolos, com emoção verdadeira, sem ritual, colocar um pequeno ramo de flores sobre o caixão de sua mãe. Nunca mais esqueci aquela cena. A velha Inglaterra espalhou pelo mundo a imagem de uma mulher que sentia, sofria, adoecia, mas não acho que tenha sido a infeliz. E talvez ela tenha deixado pros seus filhos, que essa mania de ser feliz é uma coisa muito chata e que é permitido, sim, sentirmos, sofrermos, nos entristecermos e nos alegrarmos, mesmo que humanos, sejamos, reis, príncipes ou princesas.
Adoro ver como as emoções humanas, ainda nada lapidadas ou cerceadas, brotam nas crianças. Se têm medo, choram, se sofrem, choram, se estão felizes, sorriem, se zangados, protestam. E nós, adultos civilizados (?) vamos ensinando a eles um montão de “não pode” que, vão sufocando as emoções de dor, de tristeza, de indignação e os fazem embotados. Quantos adultos conhecemos embotados? O cadeado foi fechado lá na infância e o bichinho muitas vezes passa a vida inteira procurando as chaves. Felizes daqueles que conseguem arrancar as trancas, na força ou no paciente estudo da engrenagem da fechadura. Acho que quando crescemos a “céu aberto” na realidade, de mãos dadas às nossas mais genuínas emoções, nos expandimos, crescemos e brotamos para sempre buscar os ramos de nossa felicidade.
Parando alguns minutos de frente à televisão, folheando uma revista, ou lendo as inúmeras mensagens publicitárias espalhadas pela cidade, tudo está voltado para ser feliz! Se eu comprar determinadas roupas, mudar a cor do cabelo, consumir um tal alimento, eu vou ser muito mais feliz. Nas livrarias e bancas de revista multiplicam-se os livros e revistas com extensos textos sobre como ser feliz: seja feliz no trabalho; seja feliz com seu marido, seja feliz com sua mulher; caminhos para a felicidade, criança feliz, mulheres felizes e mais, muito mais. Mas o que é essa felicidade que se vende? A prescrição, quase médica é, estar bonita, bem cuidada, sorridente, amando e sendo amada, com casa, comida, amigos, programas, festas. E nunca, nunquinha mesmo, ficar triste por muito tempo. Tristeza não combina com o mundo moderno, tristeza é entendida como infelicidade e tornou-se imperativo para que não se faça a infelicidade do outro. É obrigatório não ficar nunca, nunca mesmo, infeliz.
Ah, que coisa chata! Vou ficar bastante alegre hoje e morrendo de felicidade só porque consegui terminar de escrever esse texto. Pena que não posso vender, pois no mercado moderno essas coisas podem mesmo valer uma grana, afinal estou vendendo felicidade com esse pontinho final.
Felicidades!!!

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