domingo, 29 de abril de 2007

Todos somos diferentes


“... É preciso saber preservar-se: a mais dura prova de independência”
Netzscche- Além do bem e do mal.

Observemos as crianças. Algumas são vivas e inquietas. Outras contemplativas e recolhidas. Outras tantas falantes e curiosas. Pobres ou ricas. Pretas, brancas, amarelas ou índias. Bonitas, feias, gordinhas ou magrinhas. Sorrisos, movimentos, olhares curiosos. Umas são chamadas de normais. Elas falam, ouvem, andam, correm, brincam. Outras não vêem, não ouvem, não falam, não correm, não podem brincar. A essas chamam especiais. Mas o que são crianças especiais? O que são pessoas especiais? Ninguém é especial e, ao mesmo tempo qualquer pessoa pode ser, para alguém, a mais importante.As crianças com alguma deficiência, física ou mental, aparente, já nascem buscando um lugarzinho no mundo para a sobrevivência ou a vida. E como nos falam as mudas, se falamos com elas! Como nos ouvem os afagos as surdas! Como nos acariciam aquelas sem as mãos. Como percebem nosso calor de abraços aquelas sem os braços! Como vibram aquelas pra as quais corremos e elas não têm pernas. Como nos olham e vêm aquelas que são cegas! Como nos ensinam aquelas que não compreendemos! São crianças e, se a vida nos der tempo e soubermos vê-las e amá-las, nos percebem e sabem amar.Serão adultas. E são humanas! Manifestarão, como puderem, suas alegrias, tristezas, raivas, ternuras e tudo mais que nós, os humanos, sentimos. E podem ser produtivos. Podem criar, podem render, podem ensinar. Só precisam de espaço e aceitação
Tive dois filhos. “Inteirinhos”, como disse no momento exato em que vi recém nascido meu primeiro filho. E passei 24 anos recheando com cuidados e amor meu menino e minha menina. Hoje são jovens que lutam por continuarem o que iniciei: continuarem inteiros e inteiros nos valores morais e éticos que os fazem humanos! São saudáveis, mas são diferentes. Tão diferentes quanto eu e meus sete irmãos. Tão diferentes como são todos os meus amigos e os amigos deles. Tão diferentes quanto são todos os humanos. Porque não aprendemos, ainda, que somos tão diferentes?
Quando busquei uma escola pra meus dois filhos, os dois ainda na primeira infância, encontrei um lugar que me encantou. Uma escola, Colméia, na Urca, em que 10% do alunado eram crianças com alguma deficiência. Lá eles encontraram o mundo que no ensina que somos diferentes e podemos crescer, aprender e viver as diferenças. As crianças corriam, brincavam, brigavam, uniam-se vivendo as diferenças. Minha filha, aos cinco anos de idade tinha, dentre tantos outros amigos, uma amiga surda muda que freqüentava nossa casa. As duas brincavam juntas, como brincavam com todas as outras meninas falantes. Trocavam e criavam seus códigos e signos de relacionamento. E eu, uma jovem mãe, aprendia com aquelas crianças: as minhas e as outras.Um amigo deles, tetraplégico e com sérios problemas motores, sorria, falava, aprendia. E falava de suas emoções e de seus desejos com as outras crianças. Todos cuidavam dele. Cuidavam e se relacionavam. Não raro brigavam e competiam como toda e qualquer criança. Aquelas crianças da escola e seus pais não se protegiam da vida, cuidavam de viver. Preservavam-se misturando e respeitando todas as diferenças. Naquela escola, vinte anos atrás, acreditávamos e lutávamos por um mundo mais igualitário. Éramos professores, pais e filhos que sabíamos que a humanidade tem diferenças e devemos respeitá-las , mas jamais excluir aqueles que são tão somente deficientes físicos.
Hoje, em pleno século XXI nos causa indignação, perplexidade e até um certo de desespero o parecer da juíza Denise Frossard, contrário ao projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos. Ela escreveu. E para escrever pensou. Pensou, refletiu, opinou. Qualquer profissional que escreve no exercício de sua profissão, destacadamente aqueles que fazem pareceres, julgam, opinam, se expõem. Ela escreveu em seu parecer: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano”. Prossegue o parecer “A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana”. Como pode, uma mulher pública, que se candidatou a um cargo público e foi eleita com milhares e milhares de votos, que, por pressuposto básico seria uma defensora dos direitos do povo, seus eleitores ou não, classificar de chagas e aleijões os deficientes físicos e dizer que a exposição pública dessas pessoas produz asco no espírito dos outros? E ela sentencia publicamente que a exposição pública dos deficientes provoca asco e ainda justifica dizendo que é “... uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana”. De que rejeição natural fala esta senhora? Da rejeição natural, o corpo humano se encarrega. A natureza é sábia que faz expulsões naturais de muitas más formações congênitas. Mas muitas vezes nos dá filhos com problemas ou outros parentes que vem ao mundo diferentes.e esses filhos são tão somente diferentes! E porque somos TODOS diferentes. Nascem pessoas que têm perfeitos os sentidos, o físico e o cérebro. Mas, ainda assim essas pessoas podem, a qualquer momento, perderem saúde, membros, sentidos, capacidade motora e entrarem no grupo daqueles que a referida senhora chama de asquerosos. Certamente os seres humanos de espírito elevado, aqueles que realmente dão valor ao amor, solidariedade, compreensão, ternura, alianças e respeito aos seus semelhantes têm asco é de pessoas que têm parecer como o da juíza Frossard!
Que bom que somos tão diferentes e também sabemos que a deficiência ideológica e moral pode, se não agirmos contrários, contaminar como qualquer doença contagiosa. Nos preservemos pra que realmente possamos ser livres, num país livre, democrático e humanizado!

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