domingo, 29 de abril de 2007

ESTOU ASSUSTADA


Ah, nesse mês eu queria publicar um texto leve, magrinho como eu. Fui buscar em meus arquivos algum já escrito e vi que todos estavam entristecidos, assustados. Insisti porque essa edição é de Natal, fim de ano, e nessas épocas as pessoas ficam querendo coisas alegres pra festejar. Mas não adiantou porque estou assustada, apavorada até, com minha cidade, meu país. Então resolvo escrever sobre estar assustada porque tenho certeza de que muitos cariocas estão. Que me desculpem meus leitores, mas estamos adoecendo sem perceber e, como sou uma profissional de pesquisas e avalio condições de saúde, observo que estamos adoecendo física, mental e espiritualmente, pilares da existência humana com saúde.
Fico assustada com muitas coisas que não assustam ninguém, mas me assusto quando vejo cinquentões com discursos de que não querem ser cuidados por seus filhos na velhice e preferem ser asilados. Assustada fico quando observo os adultos jovens correndo feito loucos e reclamando por cuidarem agora, ou terem que cuidar no futuro, de seus pais ou avós envelhecidos ou doentes. Onde esta a humanidade das famílias?
Fico muito assustada, também triste, quando sei de muitos jovens perdidos diante do mercado de trabalho, quase sem oportunidades de empregos dignos e do mundo globalizado que muitas vezes os escravizam ou os denigrem ou alijam por serem muito sensíveis. Onde está a humanidade das organizações?
Ainda me assusta muito ouvir rapazes e moças rejeitarem a maternidade e paternidade por sensações que desafiam limites, abrindo mão de construírem suas famílias e terem histórias familiares repletas de sentimentos. Assusta-me tanto quanto as enfáticas afirmações de casais que limitam suas proles em nenhum ou um filho, dizendo-se incapazes de dar-lhes bens não essenciais como viagens, roupas e brinquedos caríssimos. Causa-me quase terror quando ouço pessoas preconizando a esterilização de homens e mulheres, ou o controle da natalidade, acreditando que essas ações resolvem os problemas de pobres e indigentes. Onde anda o ser humano que constrói outras pessoas?
Assusta-me muito quando escuto adultos milionários, de mais de 50 anos de idade, relatando a perplexidade em ver pela primeira vez uma situação de pobreza ou miséria. Com que sentidos humanos viveram essas pessoas?
Fico assustada quando ando pelas ruas e vejo pessoas ignorarem uma criança chorando, abandonada pelas calçadas enquanto afagam e tratam cachorrinhos como se humanos fossem.
Fico muito assustada quando motoristas de carros imponentes e importados avançam sinais, jogam lixo pelas janelas e aceleram, à vista de qualquer pedestre que vêem se aproximando.
Fico assustada quando ouço frases preconceituosas como “ele é judeu, mas é gente boa”; “ela é negra, mas tem alma branca”; ou “ele é gay, mas nem parece”.
Fico assustada com minha cidade quando leio que organizações políticas condecoram uma senhora que atirou num homem sem nenhum arrependimento e declara que seres humanos que roubam deveriam ser jogados no mar e não julgados dignamente.
Fico muito assustada quando sei que crianças pobres, ainda na primeira infância, falam que quando crescerem querem ser traficantes.
Fico muito assustada quando leio numa revista que uma mãe muito pobre, vivendo dignamente, tentando educar bem seus filhos declara, desalentada, que paga a crédito o caixão de seu filho adolescente porque sabe que ele vai ser morto pelo narcotráfico, como já foram outros, e não quer vê-lo sendo enterrado como indigente.
Fico muito assustada quando vejo risadas de deboche numa banca de revista diante de noticias do assassinato brutal de uma mulher só porque ela é rica e famosa.
Fico muito assustada quando a piada engraçada, o riso e a brincadeira tomam o lugar do respeito à dor dos outros e banalizam-se tragédias em que seres humanos foram torturados ou mortos.
Fico, a cada dia, a cada noticia ruim, muito assustada com meu Rio, que tem fama de alegre, sensual, amigo, acolhedor, mas parece emudecido, ensurdecido e cego diante da miséria humana. Ainda bem que, humanos, temos dentro do peito muitas alegrias, força e entusiasmo para, ainda que muito assustados, nos aliemos, fazendo, mesmo que um a um, dia a dia, alguma coisa para que não passemos do susto ao terror!
Fico muito assustada comigo por não conseguir escrever um texto bonito e alegre para celebrar a vida, mas aqui, no meu peito, tem muita alegria [e está] pronta a explodir na noite de Natal, onde vou estar junto com minha grande família, comemorando a esperança, a fraternidade, a união e a razão mais genuína para me assustar:ser humana!

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