
“Está cada vez mais difícil ser humano”
José Saramago
A capa da revista, DOMINGO, que acompanha um tradicional jornal carioca, no último dia 5 de março estampa a frase: “Casar? Tô fora.” e uma bela jovem de 21 anos que declara “aflição em pensar em filhos na barra da saia”. No domingo seguinte, a outra, REVISTA, encartada no jornal de maior circulação do país, empurra aos leitores uma capa onde se lê: “Bebês em promoção” com uma chamada, à moda dos anúncios do comércio, que, sobre uma foto de bebês em berçário, diz: “preços imbatíveis”. Dentro, enfeita a matéria com frases chocantes como: “gravidez: quer pagar quanto?”, “promoção imperdível”, “descontos imbatíveis. As duas revistas, domingueiras, com grande número de leitores, horrorizam e chocam os mais atentos ao que somos: seres humanos!
Na primeira revista, me horrorizo com as entrevistadas, na segunda, com a punhalada que a “arte editorial” da revista deu nos leitores e nos jornalistas que escreveram a matéria. Eles, os redatores, não escreveram sobre a banalização da vida. Escreveram sobre as oportunidades financeiras mais acessíveis para aqueles que, sendo impedidos pela natureza, tenham filhos ajudados pelos avanços da medicina. E tudo se perde ou se confunde nos destaques coloridos em que pessoas, filhos, viram mercadoria fáceis de se obter a preços promocionais, como quinquilharias em lonas de camelôs. Sei não, acho que merecemos, nós leitores e os jornalistas, pedidos enfáticos de desculpas!
Sobre a declaração horrível da mocinha da capa da primeira revista, é bom que ela só tenha 21 anos! Ainda há muito tempo em sua vida para grandes transformações e quem sabe ela seja, daqui a alguns anos, uma ótima mãe, prepare outras pessoas, construa sua própria família. Aquela mocinha ainda não pensou que aos seus 21 anos se somarão muitos outros. Ela vai envelhecer. Quando seus ovários envelhecidos não mais produzirem as sementes de novas vidas, aí, uma outra revista talvez pudesse estampá-la dizendo-se triste por não ter tido filhos na barra da sua saia. A matéria da revista mostra outras jovens mulheres, balzaquianas, no ápice de suas vidas, rejeitando o casamento, os filhos, construções afetivas e destacando a importância de terem, em contrapartida ao casamento, a liberdade, o sucesso profissional, a independência.
Mundo globalizado! Mundo do individualismo e da corrida desenfreada pelo sucesso, pelas carreiras meteóricas, dinheiro, viagens, prazeres! A elas eu diria: mulheres, já ganhamos nosso espaço! Estamos no mundo trabalhando, decidindo, felizes ou sofridas, mas já ganhamos, e muito. Nós podemos decidir nossas vidas e nossos caminhos. Podemos escolher também ter filhos e irmos perpetuando nossa espécie. Podemos amar um pequeno embrião em nossos corpos, cuidar de fazê-los saudáveis, fortes e afetuosos. Ter filhos é exercício diário de amor, dedicação e cuidados. É troca, é cumplicidade, é companheirismo e construção. A mim causa aflição, e muita, assistir à corrida desenfreada das mulheres por posição social, destaque profissional e deleites da vida associados à rejeição à maternidade! Não ter filhos é uma escolha para muitas mulheres. E me assusta ainda mais quando vejo que são exatamente aquelas que podem escolher as que estão rejeitando a maternidade. São as férteis, bem formadas, as bem sucedidas, as mais ricas, as que têm acesso à saúde reprodutiva, as que não são excluídas social e politicamente num país tão desigual. São as que estudaram e têm acesso aos meios para controlar sua prole e planejar suas famílias. Por que trocar a construção de suas vidas afetivas pelo bombardeio das oportunidades do mundo moderno?
Quando eu era novinha, ao ver em alguns carros um plástico que dizia: “conheça a vida selvagem, tenha filhos” eu ficava indignada. Agora acho até muito bem humorado. É mesmo uma alegria quase selvagem tê-los. Crianças brigando, brincando, sorrindo, chorando. Casa cheia, bagunça, brinquedos, xixi, cocô, febre, comida, hora da escola, levar para lá e para cá, educar, ensinar. E depois de cada dia cansativo, assisti-los como anjos, indefesos, serenos, dormindo. Que prazer vê-los nos chamando de mãe e nos dando a oportunidade de educá-los. Que bom vê-los crescendo, aprendendo e nos ensinando. Que maravilha poder aconchegá-los, vê-los ganhando o mundo, plumagem para os seus vôos! Como é confortante e amoroso poder acolhê-los quando sofrem derrotas! Como é bom trabalharmos, nos cansarmos, não nos desesperarmos porque os temos e queremos prosseguir no projeto de prepararmos uma nova pessoa. E podemos porque crescemos e evoluímos muito por nossas escolhas que podem incluir sucesso profissional, alegrias, casamento, amigos e filhos!
Fica a pergunta: será que casar, ter filhos, ter uma família, é totalmente incompatível com o sucesso e nosso lugar na sociedade moderna? Creio que não! Nós, da geração que hoje tem meio século de vida, revolucionamos, crescemos profissionalmente, nos destacamos no cenário político e social do país e tivemos filhos. E temos nossas famílias. Não somos as mães dessas moças que rejeitam a maternidade e, se somos, quanto desalento! Onde será que deixamos abertas as portas para que o mundo hedonista, feio e individualista entrasse e roubasse dos corações de nossas filhas a alegria e a realização de preparar outras mulheres inteligentes, independentes, vibrantes e mães?
É preciso dizer, meninas, mulheres, a maternidade não é condição essencial de realização feminina, mas, quanta alegria nos dá incluir nossos filhos às nossas construções!

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