Voltamos pra casa e, mais uma vez em tantos dias, reiniciamos o trabalho da hora do banho. Com cuidados a levamos ao banho em que o perfume do sabonete exala carinho e a água morninha aconchega e dá prazer. Mais uma troca de fralda e a escolha da nova roupa lhe dá alegria e expressa vaidade. Ela sorri e nos beija os lábios com doçura e agradecimento. No almoço um fala mansa vai acompanhando as colheradas que devem ser vagarosas para serem saboreadas. Nesses momentos tudo é divertido. Muitas vezes ficamos sujos por uma grande e certeira cuspida no rosto. Outras vezes porque a mão dela vai ao prato, à colher ou a nossa boca... Depois do almoço a sugestão da sesta é repudiada com vigor. Ela caminha e aponta, determinada, o portão do jardim. Aponta a rua e sai destemida. Vou lhe seguindo e, na eminência do perigo, a tomo pelas mãos. Ela quer ir em frente. Não tem noção do perigo. Fala frases soltas, mas seus passos determinados querem ir, sempre em frente. Caminhamos e, mais uma vez vou nomeando pessoas, casas, lugares, natureza, passado. Retornamos e sinto meu cansaço. Hora do lanche, uma fruta ou um suco. Ela aceita os alimentos com apetite. E a rotina, como o carinho e cuidados, vão nos dando o prazer de cuidar com desvelo aos que amamos e escolhemos amar, concedendo, aprendendo, reaprendendo e ir descobrindo muitos mistérios de nossas insignificantes certezas sobre a vida, o ser humano.
Não, não estou falando de um bebê. Estou escrevendo sobre minha mãe, aos 90 anos, com mal de Alzeimer, que reedita a vida, reiniciando o ciclo numa extraordinária, mas incompreensível involução. Ela, que tantas vezes fez as mesmas coisas comigo e seus muitos filhos, me faz lembrar de como é cuidar de um bebê. É um exercício do amor!

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