domingo, 29 de abril de 2007

Mãe que vira filha, ciclo da vida e do amor

Você acorda de mais uma noite insone em que a espreita foi companheira na vigilância do amor adormecido ao lado. Qualquer soluço, um movimento do corpo, lhe desperta do sono ou sonhos entrecortados. De manhãzinha, quando o sol ainda aparece tímido, você desperta dando adeus àquele ultiminho sono que tanto prazer lhe dava. Está banhada de xixi. Levanta, se lava e vai preparar a primeira papinha do dia. Sonolenta, volta à cama para despertá-la. Enquanto o mingau esfria na cozinha, aproveita para trocar-lhe a fralda e lembra de muitas vezes que trocou seus filhos e imagina as quantas vezes sua mãe repetiu aquele mesmo ritual. Com carinho cuida de seu asseio matinal. Troca-lhe a roupa, perfuma, penteia e lhe diz palavras carinhosas que são recebidas com olhos brilhantes e sorrisos singelos. Ela gosta da roupa e lhe diz isso com alegria de um olhar desperto. Vamos ao primeiro passeio do dia. Com passos curtos e ágeis vai buscando sair, talvez em busca de seus gostos, como plantas, flores, fisionomias conhecidas... Vou nomeando as casas, os moradores - vizinhos de tantos anos-, as árvores, a ponte, o rio.Por várias vezes paramos porque um outro passante a desperta ou porque ela quer colher uma florzinha de mato ou de algum jardim exuberante. Muitas vezes ela murmura algumas palavras incompreensíveis ou frases desconexas. Segurando forte minhas mãos, com força, quase machucando, ela marca seu roteiro num ímpeto determinado de ir em busca, em frente ou, quem sabe, tão somente à vida.
Voltamos pra casa e, mais uma vez em tantos dias, reiniciamos o trabalho da hora do banho. Com cuidados a levamos ao banho em que o perfume do sabonete exala carinho e a água morninha aconchega e dá prazer. Mais uma troca de fralda e a escolha da nova roupa lhe dá alegria e expressa vaidade. Ela sorri e nos beija os lábios com doçura e agradecimento. No almoço um fala mansa vai acompanhando as colheradas que devem ser vagarosas para serem saboreadas. Nesses momentos tudo é divertido. Muitas vezes ficamos sujos por uma grande e certeira cuspida no rosto. Outras vezes porque a mão dela vai ao prato, à colher ou a nossa boca... Depois do almoço a sugestão da sesta é repudiada com vigor. Ela caminha e aponta, determinada, o portão do jardim. Aponta a rua e sai destemida. Vou lhe seguindo e, na eminência do perigo, a tomo pelas mãos. Ela quer ir em frente. Não tem noção do perigo. Fala frases soltas, mas seus passos determinados querem ir, sempre em frente. Caminhamos e, mais uma vez vou nomeando pessoas, casas, lugares, natureza, passado. Retornamos e sinto meu cansaço. Hora do lanche, uma fruta ou um suco. Ela aceita os alimentos com apetite. E a rotina, como o carinho e cuidados, vão nos dando o prazer de cuidar com desvelo aos que amamos e escolhemos amar, concedendo, aprendendo, reaprendendo e ir descobrindo muitos mistérios de nossas insignificantes certezas sobre a vida, o ser humano.
Não, não estou falando de um bebê. Estou escrevendo sobre minha mãe, aos 90 anos, com mal de Alzeimer, que reedita a vida, reiniciando o ciclo numa extraordinária, mas incompreensível involução. Ela, que tantas vezes fez as mesmas coisas comigo e seus muitos filhos, me faz lembrar de como é cuidar de um bebê. É um exercício do amor!

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