sábado, 10 de janeiro de 2009

Um vira-lata como nós
Eu estava escrevendo uma crônica “RETRATO EM BRANCO E PRETO”. No meu teclado eu ia escrevendo sobre fotos de família, tema de nossa matéria de capa deste mês. Lembrava minhas andanças pelo Brasil, pelo interior, nas casinhas pobres em que sempre vi aquelas fotos com molduras ovais, em que posavam o casal ou a família e recebiam um uma leve colorido de lápis de cor, ressaltando as roupas cuidadosamente escolhidas, um jóia ou enfeite nas mulheres, um relógio nos homens. Sempre em lugar de destaque nas casas, lá estava pregado na parede, fosse de tijolos, de barro ou de madeira. Paredes de casas quase nuas, salas de receber e oferecer o cafezinho, “passado agora mesmo”.
Enquanto escrevia pensava na grandiosidade de nosso país, nas dimensões territoriais, nos diferentes recantos, nas fisionomias de diferentes tipos, índios, brancos, negros, mulatos, cafuzos, mamelucos.Nos pobres e ricos, nas belas mulheres, nos homens fortes e tostados pelo sol, nas crianças lourinhas do sul do pais, dos indiozinhos curiosos e ligeiros, das meninas fogosas das cidades, das crianças maltrapilhas das favelas, das explosões naturais das emoções onde a educação e as regras comportamentais não chegaram para conter gritos, brigas, choros, desesperos....Pensando no meu povo, nos mais simples, a maioria,que vive com um pouquinho só de toda nossa riqueza.Eu pensava nas famílias que, sem registros, documentos e dinheiro, enchem esse Brasil de alegria, música, arte, cultura. Enquanto pensava ouvia e lia atenta às notícias da alegria do mundo com a eleição do Barack Obama, o primeiro negro a chegar ao topo da direção do país mais rico do mundo. Impossível não se comover.Uma sensação de estar apanhando a lua, virando uma estrela para enfeitar nossa festa, desviando uma nuvem para molhar um jardim, buscando o sal com a mão no fundo do mar...Uma sensação de conquista do impossível. E, mesmo que a modernidade, a técnica, o dinheiro e a forças políticas tenham sido voltadas para sua eleição, lá está Obama, jovem, negro, forte, sorridente, inteligente e dizendo ao mundo que nós podemos!Dizendo ao mundo que um homem nascido de família negra africana, pode chegar ao topo, aceitar os desafios de transformar medo em esperanças e fazer comovida uma nação que parecia entorpecida pelos excessos. O mundo inteiro sorriu aberto como sorri a família Obama. Lágrimas emocionadas rolaram nos rostos sofridos dos quenianos, dos homens e mulheres que lutam por um mundo de menos sofrimento. Cariocas entristecidos com tantas maldades, falcatruas, crimes e impunidades, recém saídos de uma eleição onde houve em que pensar, também comemoraram. Nós, vira-latas aqui desse brasilzão, dessa terra cheia de negros mulatos como chamamos nossos Obamas- somos da mesma matilha do Obama e também acreditamos que podemos. Em seu discurso de vitória Obama disse: “Não somos uma coleção de pessoas, somos um país, somos os estados Unidos da América”.E somos, Obama, vários países, somos o mundo! Escancararam-se as portas da casa Branca a um negro. A América abra suas portas ao mundo! Vamos aguardar uma nova era que se inicia.
O mundo, o dos vira-latas, está festejando o novo presidente do país com pedigree.

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