sexta-feira, 12 de junho de 2009

A justiça do Brasil não tem olhos vendados, tem é vergonha de si mesma.


O símbolo da Justiça é uma mulher segurando uma balança, com os olhos vendados. Os juristas dizem que ela não enxerga porque a lei é igual para todos e o direito será dado a quem o tem, independentemente do status social da pessoa que o pleiteia.
Acho que em nosso país a justiça está apertando a venda dos olhos não por sua imparcialidade, mas porque se sente envergonhada. Ou, está nos parecendo, a venda em seus olhos também a tem tornado surda e a balança tem sempre um prato mais pesado que o outro.
Nunca no Brasil discutiu-se tanto a impunidade. Nesse contexto continua a grande pressão da sociedade para reduzir para 16 anos a maioridade penal. O grande argumento é que marginais usam as crianças e jovens aproveitando-se da certeza da impunidade deles por conta menoridade e que as próprias crianças e adolescentes, cometem delitos aproveitando-se de seus direitos no Estatuto da Criança e do Adolescente. Infelizmente essa discussão só tem peso no prato mais fino da balança, naquele prato onde estão os pobres, pretos, favelados. De ouro puro da riqueza foi feito o outro prato e ali são pesados jovens e adultos que, mesmo julgados e condenados, acabam sempre impunes. Se brasileirinhos pobres
Discutível a questão da idade, não acham? Se jovens e crianças brasileiras, sem quase nada, fossem acolhidos, seriamente tratados e orientados, teriam oportunidades de recuperação e inserção na vida adulta como cidadãos. A ciência nunca provou que nascemos com genes da marginalidade. A sociedade que exclui os pobres tem obrigação de investir para recuperá-los. Basta seriedade, boas políticas de amparo social, educação, qualificação profissional. Além, é claro, de bons exemplos dos homens e mulheres que se propõem, dirigir as empresas, as escolas, os hospitais, o país. Aí é que o bicho pega. Quem está no topo, os engravatados, “doutores”, como gostam de ser chamados esses adultos, esses em quem votamos, roubam, matam, mentem, falam bobagens, corrompem e acabam todos anistiados depois de tantas provas de seus crimes. Eles sentam algumas vezes nas cadeiras de avaliação do conselho de ética, das CPIS, dos tribunais, mas nunca levantam delas algemados. E aquela senhora, por suposto justa e ponderada, a Dona Justiça, fecha os olhos sob a venda e curva-se envergonhada.
Os jornais das últimas semanas estampam ótimas fotos, excelentes textos, contando pra todo mundo como se anda fazendo sem ética a política no Brasil. Eu, hein, roubar, mentir, fazer falcatruas é só uma questão de ética? Eu aprendi que era CRIME e crime sempre foi assunto da digníssima senhora justiça.
Outra palhaçada do momento é a tal falta de decoro parlamentar. Decoro parlamentar? Indecorosos são todos eles, políticos, juízes, empresários, intelectuais ou quaisquer outros que têm uma camisa de colarinho branco (às vezes até mudam as cores) porque tiveram oportunidades de educação, cultura, saúde e, mesmo matando, roubando ou formando quadrilhas, continuam fazendo parte do quadro de mandatários do Brasil. Algumas vezes somem por um tempo, mas voltam, senão para os cargos, para uma vida tranqüila. Na prisão só ficam mesmo os sem colarinho algum, muitas vezes os que até trabalharam “engomando” os colarinhos, sem nem saber com que dinheiro foi comprada a goma!
Aonde nossos jovens vêem bons exemplos? O que significa para uma criança ver seus pais sem renda suficiente para alimentá-la e nenhuma oportunidade de protestar contra a miserável situação em que vivem, mesmo tendo a seu lado a figura simbólica de uma mulher segurando a balança e com os olhos vendados a quem chamamos justiça? Como ficam diante de juízes que roubam, matam e são libertados? Ou das operações com nomes quase debochados de “navalha”, “anões”, “sanguessugas”, “ambulâncias”? Eles, as crianças e jovens, assistem à libertação dos culpados ou ao esquecimento, já que tudo quase sempre dá em nada.
Sempre acreditei no exemplo, na presença, no amor, e nos limites para uma boa educação de filhos. E agora, aí está em toda a imprensa mais um caso que reafirma minha crença. Jovens que materialmente tudo tiveram, atuando nas madrugadas com suas armas discriminatórias, desumanas, brutais espancando seres humanos pelo simples fato de e acreditarem que tudo podem. Eles devem ter sido criados com a certeza de que são melhores. Se não aceitam prostitutas, matam. Se vêem pobres nos pontos de ônibus, debocham, ironizam ou espancam por puro divertimento. E que pais são esses que os criaram? Certamente são também aqueles que acreditam que seus trabalhadores domésticos, um peão de obra, um mecânico que conserta seus carros, um pedinte na rua, são pessoas menores ou nem são seres humanos. Eles jamais ouvem as vozes dos pobres, nunca levaram seus filhos a nenhum lugar onde crianças, ricas ou pobres, se misturam. Certamente não lêem, não discutem o povo do Brasil e freqüentemente usam a expressão “coisa de pobre” ao assistirem manifestações festivas, falas, pensamentos ou opiniões dos milhões de brasileiros que fazem esse país com seu trabalho. E nesse ambiente criam seus filhos. Antes de ensinarem que todos são seres humanos, ensinam a seus filhinhos que são superiores. Um amigo meu, ator, que anima festas infantis, ao chegar numa casa de um político famoso e rico, ouviu da aniversariante, uma menina de 5 anos: “você acha que vai ser alguém na vida animando festas de crianças?”. Quem será essa menina na vida adulta? Que pais têm essa menina que, com idade tão tenra, é capaz de expressar tamanho horror em sua frase, certamente ouvida em seu meio social, na sua família?
O caso da Sirlei, graças à imprensa, está sendo discutido. Seus agressores “mauricinhos” estão fazendo um pequeno estágio numa prisão na cidade, mas assim como aqueles que queimaram vivo um índio, como os embriagados que atropelaram e mataram, outro que deixou tetraplégico um jovem e muitos e muitos outros riquinhos, estarão, muito brevemente, ocupando cargos de direção em empresas ou até mesmo no governo - o que nos envergonha e faz a descrença da justiça brasileira.
Sugiro nesse meu texto desabafo que alguém leve uns bons livros aos jovens detidos provisoriamente. A escritora indiana Thrity Umrigar escreveu “A distância entre nós”, um belíssimo romance sobre as dores humanas de uma favelada, empregada doméstica que esfrega o chão, limpa a casa e cuida de tudo que jamais poderá usar. Do outro lado, uma dona de casa rica e sofrida que tem um genro como os desumanos brasileiros que só aprenderam como ganhar dinheiro. Na leitura desse livro esses jovens podem refletir que as dores humanas ultrapassam quaisquer limites de classe e que um mauricinho como eles, por falta de decoro, ética ou amor, destrói um ser humano.

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